Arriscar Viver – uma articulação entre riscos e a saúde mental

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Arriscar Viver – uma articulação entre riscos e a saúde mental

 

O termo risco provém do italiano, risco ou rischio que por sua vez, deriva do árabe clássico rizq (aquilo que se depara com a providência).

O termo faz referência a proximidade ou contingência de um possível dano.
A noção de risco costuma ser interpretada como sinônimo de perigo, o risco, no entanto, prende-se com a vulnerabilidade, ao passo que o perigo está associado a possibilidade de um prejuízo. É, portanto, possível distinguir o risco (possibilidade de dano) e o perigo (probabilidade de acidente ou patologia). Logo, viver em riscos não determina que corremos perigo. Por outras palavras, o perigo é uma causa do risco.

Nossa capacidade cognitiva na expectativa de que algo possa acontecer ou a probabilidade de uma representação daquilo que nos ameaça é um fenômeno que está diretamente ligado as nossas instâncias psíquicas, ou seja, ao nosso modo de funcionamento e organização mental. A consciência, que é uma de nossas funções psíquicas, compõe singularmente a percepção que nos dá a confirmação da própria existência. Com isso, carregamos a seguinte noção; ora, se existo estou exposto a riscos, logo, estou em perigo! Como diz o subtítulo deste simpático café que possibilita esta reflexão, “Viver é um risco”.

Proponho agora pensarmos sob o ponto de vista da saúde mental. Faz-se notar quão próxima pode ser a analogia na relação que estabelecemos aos inevitáveis riscos que a vida nos impõe frente aos sintomas de nossa psicopatologia cotidiana. Sendo assim, constato em minha prática clínica, no consultório e nas corporações os seguintes cenários nosográficos: Grande parte dos sujeitos que sofrem com os transtornos de ansiedade com características obsessivas (fobias, crises de pânico, oscilações de humor, distúrbios do sono, pensamentos negativos recorrentes…), vivem e convivem com exacerbada presença de uma espécie de fantasma chamado RISCO. E a qualquer momento pode se manifestar e concretizar em um risco biológico, risco financeiro, ou ainda, numa gravidez de risco. O psicanalista Jacques Lacan dizia em suas aulas que o desejo é a essência da realidade, portanto, é preciso atenção com o que desejamos.

Por outro lado, do polo de humor em nossas personalidades, constato nos sujeitos que sofrem com a depressão a apreensão melancólica de quando o risco se tornou maior e mais forte do que a própria vida. É a real sensação de exaustão física e emocional frente a própria existência e o risco que corremos a todo instante passa a ser demasiadamente ameaçador.

E o que pensar dos sintomas histéricos, senão sua manifestação característica de viver se justificando ou adiando tudo simplesmente porque os riscos estão aí. Ou ainda, viver a prevenção no lugar da vida e queixar-se de tédio e insatisfação.

Pura histeria.

Nas chamadas psicoses, graves quadros de doença mental, os difíceis surtos esquizofrênicos, o que observo? Sim, uma imediata analogia de que os riscos nos perseguem, nos observam e nos corroem. Os riscos nas psicoses se transformam em vozes, em delírios, em alucinações, em megalomania, os riscos se transformam em monstros que rompem com a realidade.
Ufa, em meio a tantos perigos, como fazer com os riscos? No pleno uso de nossos recursos psíquicos, Sigmund Freud teorizou, nos organizamos em torno dos mecanismos de defesa que produzem modos de funcionamento e comportamento como reação e resposta aos inevitáveis riscos. Então, frente aos riscos são diversas as formas de se defender; negar, reprimir, regredir a fases primárias e infantis, deslocar, projetar aos outros, intelectualizar, racionalizar ou sublimar. Tudo isso, todo este arsenal, cada um a seu modo, serve para nos afastar da ideia de perigo, no entanto, qual melhor recomendação a forma como devemos nos posicionar?
Resposta: Aceitar, compreender, elaborar e superar o fato de que nossa existência é arriscada e contempla a vida.

Alexandre De Renzo Barretti – psicanalista, professor/supervisor em saúde mental, consultor em desenvolvimento humano e mestre em psicologia clínica.

derenzobarretti@gmail.com

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